Além do Caos: a obra de Phil Hine, em campanha

Como já disse em alguns momentos anteriores, eu tive o meu começo no rolê esotérico com a Magia do Caos (algum dia talvez eu conte aqui melhor qual foi o caminho e como fui parar nele)… mas, como muitos outros magistas contemporâneos com uma história parecida, não me identifico mais com o movimento. Apesar disso, ainda tenho bastante carinho e admiração por alguns desses autores que me levaram a parar de estudar magia como um interesse acadêmico e de fato sair, ir lá e praticar — e um desses nomes foi Phil Hine.

Lembro, quando comecei, de ter lido e relido os textos do seu falecido site philhine.org.uk — hoje ele toca só o enfolding.org, dedicado ao Tantra e a análises da occulture em geral, mas o antigo ainda é acessível via Wayback Machine do Internet Archive. O banimento dele, usado pelo seu grupo mágico Circle of Stars e descrito em “An Introduction to Banishing Rituals”, foi o primeiro ritual do tipo que eu adotei em minha antiga rotina, antes de passar a usar o Ritual menor do Pentagrama e o currículo da Golden Dawn no geral (que, por sua vez, agora deram lugar a uma outra coisa). E ainda acho divertidíssimos alguns de seus artigos lá, como “Rites that go wrong”, de sua autoria, além de outros escritos de autores convidados como o de Martin Goodson sobre magia geomântica ou o memorial à morte de Jhonn Balance, do grupo Coil, escrito por Ed Richardson.

Hine é uma personalidade das mais interessantes: sempre irreverente, é louvável a paixão que seus textos transmitem pela magia e pela vida mágica. É muito óbvio que vivenciar as coisas é, para ele, infinitamente mais importante e interessante do que a magia de Excel de compilar tabelões de correspondências e as infinitas e tediosas discussões que eles trazem à tona (o que eu imagino que, sendo da área de TI, seja a última coisa que ele vai querer fazer nas horas vagas). Eu posso não concordar hoje com o que ele disse aqui e ali sobre práticas mágicas (afinal, minha postura quanto a questões espirituais é um tanto mais cautelosa do que o que se observa no auge da época do Caos), mas tenho respeito pela figura e sua trajetória. É digno de nota também como, em vários de seus textos, ele fala abertamente de sua experiência como um homem bissexual, seu envolvimento com a cena queer ou LGBT dos anos 90 e seus esforços para constituir uma comunidade de Queer Pagans, como ele diz, e combater a homofobia que tantas vezes corre no rolê disfarçada de conhecimento esotérico.

O caminho de Hine pela magia, até onde eu pude acompanhar, começou na Wicca e então ele se envolveu com o pessoal do Caos em West Yorkshire, na década de 1980. Logo adquiriu alguma fama na cena como coeditor da revista Pagan News, junto com Rodney Orpheus, e pelas suas publicações Prime Chaos (1993) e Condensed Chaos (1995), livros introdutórios à Magia do Caos, sua mentalidade e técnicas, além de The Pseudonomicon (1996), um livrinho de magia lovecraftiana (e talvez o mais interessante que eu li até o momento sobre o assunto). Mais recentemente, em 2019, Hine também publicou a coletânea Hine’s Varieties: Chaos and Beyond, em que ele passa em revista sua própria história e oferece textos diversos sobre assuntos que abrangem sim Magia do Caos, mas também Tantra, paganismo, sexualidade e até mesmo ficção literária.

Arte da Oficina Palimpsestus para a campanha no Catarse

Por isso, é com muita alegria que anunciamos a campanha do projeto Além do Caos: a obra de Phil Hine, da Oficina Palimpsestus. Vocês devem reconhecer o nome da Oficina por conta da campanha de financiamento coletivo que conduzimos no ano passado para a publicação da obra reunida de Austin Osman Spare. Os livros já foram entregues — verdadeiros calhamaços inestimáveis de mais de 800 páginas de textos e arte, constituindo um marco histórico — e agora é hora de darmos o próximo passo.

Neste projeto — encabeçado mais uma vez pelo editor e tradutor Rogério Bettoni e contando com a minha participação como tradutor, ao lado da também tradutora e poeta Maíra Mendes Galvão, recentemente responsável por uma nova edição de 1984, de George Orwell — foram traduzidos esses quatro volumes ainda inéditos em português, Caos Primordial, Caos Condensado, O Pseudonômicon e Caos e Além, que muito em breve, com o seu auxílio, verão a luz do dia. De bônus, tem também um quinto volume, Trajetórias, exclusivo para o nosso projeto!

O link para o financiamento coletivo no Catarse está aqui. Após umas duas semanas de pré-campanha, campanha estreou de fato à meia-noite da sexta-feira para sábado, dia 20, e ficará no ar até o dia 19 de janeiro. Os apoios podem ser parcelados em até 6x. Entre as recompensas, além dos livros e o box, temos ainda pingentes e anéis da estrela do Caos, bem como um fofíssimo Baphomet queer. Não esqueçam de seguir a Oficina Palimpsestus no Instagram e no Twitter, e também o próprio Hine!

(texto originalmente publicado em 11/11, atualizado em 23/11)

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