Lendo a Bíblia: como surge o monoteísmo

Alguns autores como Jean Bottéro trabalham com uma distinção entre dois tipos de religião: as religiões mais orgânicas, tradicionais ou populares, cuja origem não é possível identificar em um único indivíduo, e as religiões históricas, atribuídas a uma profeta específico, que promulga um livro sagrado onde estão codificadas as principais doutrinas. O zoroastrismo com a figura de Zaratustra, o cristianismo com Jesus Cristo e o islã com Maomé, nesse sentido, são todos exemplos de religiões históricas prototípicas, ao passo que as religiões que eles procuraram reformar, as várias formas de “paganismos”, com seus muitos deuses e as grandes variações de cultos locais, seriam exemplos das religiões do primeiro tipo. Já o judaísmo é um pouco mais complexo, porque, apesar de ter chegado ao monoteísmo a partir de um politeísmo prévio, ele apresenta essa ruptura como sendo mais súbita e dramática do que foi de fato, como parte de um esforço político para firmar esse monoteísmo e fortalecer a identidade nacional. Neste texto, parte da minha série aqui n’O Zigurate chamada Lendo a Bíblia, vamos ver, brevemente, como isso se deu.

Primeiramente, vamos recapitular o que acontece no começo da Torá: após o dilúvio e a Torre de Babel nos primeiros capítulos do Gênesis, o Criador se mantém meio low profile, até que surge um homem chamado Abrão (cujo nome muda depois para Abraão) que encontra graça a seus olhos. Deus e Abr(a)ão firmam uma aliança, por meio da qual o patriarca e sua esposa Sara concebem um filho chamado Isaac. Isaac, por sua vez, gera Esaú e Jacó. Por conta de uma história bizarra, envolvendo um “mingau vermelho”, Esaú passa a ser conhecido como Edom, uma palavra que vem da mesma raiz para “vermelho” (adom) e era o nome de um dos povos vizinhos e rivais da nação que viria a ser Israel/Judá (tem um mapa abaixo para deixar mais claro). Jacó também ganha um outro nome, pois certa noite ele luta com uma figura obscura (que poderia ser um anjo ou o próprio Deus) e por isso passa a atender pelo nome Israel, “que lutou com Deus”. Por sua vez, é ele quem vai gerar toda a nação israelita, seus descendentes sendo os responsáveis pelas 12 tribos.

Como dá para observar, o Gênesis trabalha com uma noção antiga, mítica, de nações inteiras serem geradas por um único indivíduo, o que explicaria certas coisas. Não é por acaso que o narrador de Gênesis atribui a outros dois vizinhos rivais de Israel, Moab e Ammon (olha ali no mapa!), uma origem nada nobre: eles seriam descendentes das filhas de Lot, quando elas embebedaram e transaram com o próprio pai após a destruição de Sodoma. É por isso que essa história safada está na Bíblia. Imagine que alguém fosse escrever um Gênesis brasileiro (provavelmente uma pornochanchada), que incorporasse noções do senso comum do nosso país, onde tivesse um personagem chamado Argentino que seria um filho da puta e outro chamado Paraguaio que seria muito falso e mentiroso, e dá para entender qual é a lógica torta dessa narrativa.

Porém, é só no livro do Êxodo que Deus se manifesta plenamente, diante de Moisés, e lhe diz Seu Nome, que os patriarcas anteriores desconheciam: YHWH, o nome inefável, santo demais para ser pronunciado. Apesar disso, entende-se que a pronúncia original seria Yahweh, ou Iavé, mas alguns jesuítas do século XVIII propuseram a vocalização (equivocada) Jeová. Já nas traduções para o grego antigo, YHWH virou iota-alfa-ômega, IAO, como aparece nos Papiros Mágicos Gregos.

Em outros momentos, no entanto, Deus é chamado de El, atestado em vários nomes teofóricos como Israel (“que lutou com Deus”), Rafael (“cura de Deus”), Miguel/Michael (“quem é como Deus?”), etc. Às vezes aparece também o nome Elohim, um tipo de plural majestático[1], além de El Shadai (Deus Poderoso, Deus Destruidor ou Deus Provedor… é obscuro[2]) e El Elyon (Deus Altíssimo). Quem conhece um pouco de Cabala também vai reconhecer El como o nome divino associado à séfira de Chesed, a face misericordiosa de Deus. Mas por que essa profusão de nomes? O que está acontecendo aqui?

Cosimo Rosselli – Moisés e as Tábuas da Lei (1480)

Ugarit e Edom

Antes de tudo, é preciso mudarmos um pouco nosso foco, de Israel para uma outra nação, a de Ugarit. Ugarit foi uma cidade-Estado portuária e um reino da Síria, localizada onde hoje é Ras Shamra, destruída em meio ao caos do colapso da Idade do Bronze. Sua destruição foi tão completa que ela só foi redescoberta em 1928 — e foi uma descoberta incrível, porque havia muitas coisas interessantes ali. Primeiro temos o idioma ugarítico, uma língua semítica cananeia que partilha de muitas semelhanças com o hebraico bíblico. Segundo que essa língua foi registrada num alfabeto próprio em cuneiforme, o único do mundo, haja vista que o cuneiforme sumério e babilônico é um sistema de escrita logossilábico, i.e. que usa caracteres para representar conceitos ou unidades fonéticas silábicas. Um caractere em sumério como 𒀭 pode significar o conceito de céu ou divindade (dingir) ou a sílaba an/am, por exemplo. Partir daí para o conceito de letras individuais foi um salto conceitual bastante complexo. É muito provável que o alfabeto protossinaítico, o primeiro que surgiu e depois deu origem ao fenício e seus descendentes, tenha sido levado para lá e adaptado para a mídia da tabuleta de argila com a qual eles já deviam estar acostumados. E demos sorte por isso, porque essas tabuletas preservaram o material antiquíssimo dos mitos de Ugarit, e sua descoberta causou um impacto imenso nos estudos bíblicos, comparável talvez apenas com a dos Manuscritos do Mar Morto, apesar de ter menos publicidade ao seu redor.

A grande sacada aqui é que El é o nome do chefe supremo do panteão ugarítico, um tipo de deus patriarcal que constitui uma família divina com sua esposa Athirat ou Asherah[3]. Seus principais filhos são Ba‘al, Yamm (lit. Mar) e Mot (a Morte), e as histórias cosmogônicas de Ugarit tratam de uma batalha primordial entre Ba‘al e seus irmãos, que culmina com sua vitória e coroação como o principal herdeiro do grande deus El e foco do culto nacional. O lugar-comum de um embate primordial faz parte também das narrativas míticas da Mesopotâmia, como bem sabemos, com as histórias de Enki vencendo o Apsu e Marduk vencendo Tiamat, mas é ausente na Bíblia… ou, pelo menos, ausente até a página 2. Sim, em Gênesis 1, é difícil identificar algum sinal desse Chaoskampf anterior, pois aí observamos Deus criando o mundo a partir do zero, mas há outros trechos da Bíblia que registram ainda noções mais antigas e que, por qualquer motivo, não foram revisadas. O salmo 74:12–14 diz o seguinte:

Todavia Deus é o meu Rei desde a antiguidade, operando a salvação no meio da terra.
Tu dividiste o mar pela tua força; quebrantaste as cabeças das baleias nas águas.
Fizeste em pedaços as cabeças do leviatã, e o deste por mantimento aos habitantes do deserto.

E algo semelhante se observa em 89:10–12 e 18:9–16.

Todas essas descrições em que Deus destrói criaturas marinhas, como Leviatã e Rahab, associadas ao caos primordial ecoam as batalhas de Ba‘al e Marduk, que provavelmente eram parte do entendimento da cultura oral popular do antigo Israel. Gênesis 1 passa as coisas a limpo para que não haja dúvidas da supremacia do Deus de Israel (afinal, só há combate quando há duas figuras que podem medir forças), mas esses resquícios mitológicos acabam sendo fortes demais para serem apagados com sucesso — talvez fossem canções já bem conhecidas pela população, o tipo de coisa que não dá para simplesmente fingir que não existe. Quem tiver interesse sobre o assunto, pode conferir a questão mais a fundo nas obras de Mark S. Smith e Yair Zakovitch, The Origins of Biblical Monotheism e From Gods to God, respectivamente, que eu consultei aqui para escrever este texto sem me equivocar demais.

Marduk & Tiamat – arte de Satanfudge

Outro lugar-comum mítico, associado ao deus El, e que parece ter sido preservado em algum grau pela Bíblia, é a ideia da assembleia divina, em que El convoca todos os outros deuses em conselho para deliberar sobre uma dada questão. Quem tem familiaridade com o material homérico, outra obra que remete igualmente à Idade do Bronze, assim como as tabuletas de Ugarit, vai reconhecer que a assembleia divina aparece em diversos momentos ao longo da Ilíada também, convocada por Zeus para que os deuses deliberem sobre o destino dos heróis envolvidos na Guerra de Troia. Na Bíblia, a assembleia divina aparece só na abertura do livro de , onde vemos Deus reunido com os outros bnei Elohim, literalmente filhos de Deus, incluindo o filho mais polêmico, o Adversário (HaSatan), com quem ele delibera acerca do destino de Jó. Dada a cosmologia que ficou, a nossa tendência é entender essas figuras como anjos, mas é possível que, em algum momento, elas fossem vistas como divindades menores.

Apesar de não ser recomendável darmos de barato uma identificação direta entre a religião e cultura de Ugarit com a religião e cultura do Canaã só pelo fato de ter sido esse o material textual que sobreviveu (em oposição à cultura cananeia, à qual temos acesso apenas por fragmentos) e pela proximidade geográfica, há muitos elos significativos entre essas culturas. Não por acaso, acredita-se que o próprio nome da cidade de Jerusalém seria derivado do nome Shalim, o deus crepuscular do panteão cananeu que também aparece como parte da família divina do deus El. Também, apesar de ser possível argumentar que El seria apenas um nome genérico para “deus”, com base na semelhança com o ilu do acadiano, que significa “deus/divindade”, há indícios que apontam para essa identificação entre El e o deus dos israelitas. Números 23:22, por exemplo, diz: “Deus (El) que os trouxe do Egito é para eles como os chifres altivos do touro selvagem”[4]. A associação com touros e chifres não é comum na iconografia judaica posterior, mas fazia parte dos símbolos comuns associados a El em Ugarit.

Assim sendo, uma hipótese corrente em meio aos pesquisadores da área é a de que esse culto antigo a El teria se fundido em algum momento, talvez no séc. IX a.C., com o culto ao deus YHWH. Diferente de El, YHWH era um deus outsider, importado dos nômades de Edom – e aí a representação negativa dessa nação pode ser entendida como um tipo de rivalidade, incorporada no conflito entre Esaú e Jacó. Muito pouco se sabe, porém, sobre esse culto original anterior à sua incorporação pelos israelitas, mas a associação entre YHWH e Edom consta em trechos bastante antigos como o Cântico de Débora em Juízes 5. Há indícios de que ele seria um deus da metalurgia, com algumas propriedades de deus atmosférico — que fizeram com que seu culto entrasse em conflito com o de Ba‘al. Quando eu falei em Ba‘al logo acima, quem tem alguma familiaridade com a Bíblia ou com a Goécia, provavelmente reconheceu esse nome. No livro de Reis, Ba‘al e seus sacerdotes são ridicularizados, e seu culto é considerado uma abominação, o que faz muito sentido num contexto de cultos concorrentes. Seguindo a tradição posterior de demonização das divindades alheias, Ba‘al, ou Bael, e suas variantes, como Ba‘al-Berith ou Ba‘al-Zevuv (Belzebu) acabaram constituindo algumas das figuras mais famosas da demonologia.

Por que foi que YHWH e El acabaram sendo considerados como o mesmo deus, enquanto YHWH e Ba‘al, filho e herdeiro de El na mitologia ugarítica, entraram em conflito — isso ninguém consegue dizer ao certo por ora. Mas uma leitura atenta revela esses indícios de uma fusão posterior e possivelmente um caráter original distinto das duas figuras divinas: como Mark Smith aponta, por exemplo, é muito possível que o deus do Êxodo fosse El, considerando sua predominância nesse corpus poético, em contraste com o nome de YHWH. A primeira tentativa de identificar os autores da Torá, feita por Julius Wellhausen no século XIX e chamada de hipótese documental, fala em quatro documentos principais que teriam sido fundidos: um documento Iavista (J, de Jahwist, em alemão), mais antigo e que tende a uma visão mais antropomórfica, que se refere a deus como YHWH; um documento Eloísta (E), com uma noção mais abstrata do divino, que usa o nome Elohim; um documento sacerdotal (chamado P, de Priesterschrift), responsável principalmente pelos trechos de leis, códigos e genealogias; e um documento deuteronomista (D), responsável sozinho pelo livro de Deuteronômio. Essa interpretação, nascida do séc. XIX, não é exatamente aceita assim mais — não sem ressalvas, pelo menos — , mas é a mais famosa e uma das primeiras tentativas de entender essa distribuição de nomes, por isso é importante a gente se familiarizar com ela.

Da monolatria ao monoteísmo

É evidente, portanto, que o monoteísmo defendido a ferro e fogo na versão finalizada do texto bíblico é uma inovação em relação à religião tal como era praticada historicamente no antigo Israel. Um termo comum usado para falar da religião de Israel no começo da Idade de Ferro é monolatria: o reconhecimento do poder e da divindade de vários outros deuses, mas a adesão ao culto de um único deus local, El/YHWH. Mesmo uma fonte como a Jewish Virtual Library (que poderia promulgar a leitura monoteísta mais estrita) entende nesses termos a religião dos antigos israelitas. O Primeiro Templo, lendariamente atribuído a Salomão, teria sido um local onde essas adorações conviveriam lado a lado, o que mais tarde foi interpretado, sob uma perspectiva monoteísta, como um lapso e pecado de Salomão, que teria cometido idolatria, influenciado por suas esposas estrangeiras. Como castigo, seu reino é dividido em dois, com Israel ao norte e Judá ao sul (historicamente, porém, é muito provável que os dois reinos nunca tenham sido unidos, para começo de conversa).

Estela de El. Da obra de James Prictchard, Ancient Near Eastern Pictures Relating to the Old Testament (1969).

As coisas começam a mudar por volta do séc. IX a.C. com os profetas. Fala-se numa revolução profética, e trataremos mais adequadamente do fenômeno do profetismo num texto posterior, porque o assunto merece ser comentado de forma mais profunda. Para resumir, as tensões políticas e territoriais causam um período de profunda instabilidade, e os profetas trazem uma mensagem de que Deus estaria furioso. Segundo Amós, por exemplo, que teria pregado no norte entre 780 e 750 a.C., de nada adiantaria servir a deus ritualmente, cumprindo as oferendas de sacrifícios e tudo mais, mas manter um comportamento imoral e permitir que o rico oprima o pobre — sim, justiça social é um assunto que pesa com força aqui. Diz Deus, segundo o profeta: “Por três transgressões de Israel, e por quatro, não retirarei o castigo, porque vendem o justo por dinheiro, e o necessitado por um par de sapatos, suspirando pelo pó da terra, sobre a cabeça dos pobres” (Amós 2: 6,7). Pelo que eles pregam — sobretudo Amós, Oseias, Isaías e Micah — , Deus é sobretudo um deus da justiça, da moral e da retribuição. Assim, se os israelitas continuarem se comportando mal, a nação acabará castigada, pois Deus permitirá que as nações estrangeiras a oprimam. Por um acaso do destino, é isso que acontece, e o reino do norte, como já falei no texto anterior, cai, destruído pelos assírios. Nesse contexto, é fácil chegar a uma interpretação que legitima os profetas.

Um outro acontecimento relevante são as reformas do rei Josias, em 622 a.C. Segundo a lenda, o sacerdote Hilkiah teria encontrado “o livro da Lei” enquanto limpava a tesouraria do Templo. Este “livro da Lei” não é o livro do Crowley, óbvio, mas o último livro da Torá, Deuteronômio, que se apresenta como um discurso de Moisés, dado antes de ele morrer, mas que, na verdade, teria sido redigido numa data muito mais recente. Então, diz a história, Josias percebeu que geral estava fazendo tudo errado e que era necessário uma reforma. Como comenta Karel van der Toorn, em Scribal Culture and the Making of the Hebrew Bible, com a queda do reino do norte, houve um influxo de sacerdotes, agora desempregados, os quais vieram procurar trabalho no Templo de Jerusalém, o que naturalmente causou conflitos — resolvidos no Deuteronômio em prol dos sacerdotes levitas. Outro elemento da reforma de Josias foi a eliminação de todos os elementos pagãos.

De novo, apesar de a gente entender a Bíblia como uma unidade, há tensões internas no texto finalizado. Nem todo mundo curtiu a reforma de Josias — e se pudermos confiar em Karel van der Toorn, uma dessas figuras foi ninguém menos que o profeta Jeremias, para quem o suposto livro da Lei não passava de uma obra da “falsa pena dos escribas” (Jeremias 8:8). Pesado. O fato de que Nabucodonosor II invade e destrói tudo apenas 25 anos após o início da reforma, levando ao Exílio da Babilônia, também foi interpretado por alguns refugiados como um mau sinal, como comenta Margaret Barker[5].

O Exílio, por fim, foi um momento de reelaboração da teologia israelita. Geralmente quando você tem um deus nacional e a sua nação é invadida e destruída, entendia-se que haveria um conflito entre os deuses, e muito possivelmente o deus estrangeiro poderia ser visto como um deus mais poderoso do que o deus local. Ou então, como faziam os romanos, que costumavam adotar os deuses dos povos que eles colonizavam, era possível que o deus local fosse seduzido pelos estrangeiros. Mas o que acontece aqui é outra coisa: YHWH é entendido como um deus supremo, acima dos deuses estrangeiros, e a destruição de Israel e Judá teria sido permitida, como pregaram os profetas, porque o povo se desviou e atraiu sua ira divina e justa. Então, se o povo lamentar e se redimir e jurar seguir o caminho de novo fielmente, Israel será restaurada, mas é preciso aderir com rigidez a uma postura monoteísta e um código rígido de moral e ética. Com o retorno do Exílio, foi essa a postura assumida, e toda a história anterior passou a ser entendida sob essa ótica. Com frequência, aparece o lugar-comum da prostituição, por meio do qual Israel é apresentado como uma esposa infiel, e aquele versículo digno do Marquês de Sade em Ezequiel 23:20, é a manifestação mais extrema dessa metáfora. O monoteísmo estrito — segundo o qual YHWH não é apenas um dentre vários deuses, nem mesmo o mais poderoso dos deuses, mas o único deus — seria não uma inovação religiosa, mas sim o judaísmo original, do qual os “idólatras”, como Salomão ou os adoradores do Bezerro de Ouro, teriam se desviado, e foi essa a perspectiva oficial adotada ao longo do livro… exceto onde certos trechos escaparam à visão dos editores. O resto é história.

O que tirar disso tudo?

Na cabeça da maioria das pessoas, existe uma separação rígida entre monoteísmo e politeísmo. Há uma tendência, bem alinhada a uma postura clássica colonial, de enxergar o politeísmo como uma coisa “primitiva”, de povos ignorantes e sem luz, em oposição à sofisticação do monoteísmo. Ao mesmo tempo, desde o século XIX existe uma romantização do politeísmo e da “religião natural” que já levou a algumas declarações meio loucas como a de que os abusos ecológicos cometidos pela modernidade seriam uma consequência lógica do monoteísmo[6]. Como eu quero demonstrar, no entanto, as duas coisas não são necessariamente uma oposição preto no branco, e talvez seja mais interessante enxergá-las como parte de um contínuo. 

Existe um politeísmo mais hardcore, como o que se via na Roma dos seus anos finais, com uma infinidade de deuses, alguns dos quais tinham funções bizarramente específicas, como a Cloacina, deusa das privadas e esgotos, e existe o monoteísmo estrito defendido pela Bíblia em sua forma mais finalizada, mas entre uma coisa e outra há muitas outras formas de se identificar as relações entre várias potências divinas e o conceito, mais abstrato, do Divino absoluto. A religião da Babilônia, que chegou a elevar Marduk ao nível de deus supremo, do qual todos os outros deuses seriam uma emanação, e a teologia do hermetismo e do neoplatonismo, na qual deuses, dáimons e outros espíritos convivem com o conceito de um Deus absoluto e inapreensível, são algumas dessas possibilidades de meio de caminho. Mas, como podemos ver, mesmo o Antigo Testamento, apesar de sua fama, apresenta, ao olhar mais detido, certas nuances que revelam um mundo antigo mais complexo do que a caricatura que se costuma imaginar.

* * *

[1] Nomes terminados em -im costumam ser plurais masculinos, em oposição a -ot, femininos. Elohim pode ser “deuses” em alguns contextos, mas, em Gênesis 1:1, por exemplo, essa é uma leitura difícil de manter, porque a palavra está no lugar de sujeito e o verbo está no singular. Nesse sentido, é como se fosse “o deus dos deuses”, por assim dizer, enfatizando sua grandiosidade. O mesmo acontece com o monstro colossal beemote (behemoth), plural de behema, “besta”.

[2] Uma das leituras entende que Shadai vem do hebraico para… mamas. Mas não posso simplesmente botar um “Deus Tetudo” no meio do texto.

[3] Asherah é um outro nome que aparece na Bíblia descrevendo um tipo de totem e que é combatido nas reformas religiosas de Josias. Uma interpretação corrente entende que esse seria um símbolo da deusa e que persistiu por um tempo, apesar da mudança para o monoteísmo.

[4] Aqui eu puxei a tradução do mechon-mamre e do Mark Smith que interpreta towaphah como “chifres”. As traduções Almeida e NVI para o português interpretam essa palavra de forma menos literal como força.

[5] Margaret Barker é uma figura meio complicada para se citar assim levianamente, pois ela tem umas leituras já questionadas no meio acadêmico. Dito isso, mesmo com essas ressalvas, essas questões que ela aponta em seu texto “What did king Josiah reform?” fazem bastante sentido, pelo menos aqui.

[6] Quem faz esse comentário alucinado é o autor Lynn White Jr. num ensaio que ficou famoso posteriormente. Vale comentar que, apesar de parecer fazer sentido à primeira vista, porque Deus dá a Adão comando sobre todas as coisas, esse argumento não se sustenta por vários motivos, um dos quais é o fato de que o mundo pagão da Idade do Bronze já havia afetado de forma substancial a natureza, a ponto de alguns autores falarem em mudanças climáticas antropogênicas. Mineração e metalurgia não são exatamente atividades que tratam a terra com carinho. Depois, pensando na ótica judaica, Hava Tirosh-Samuelson tem um texto também em que essa ideia é refutada com base no pensamento rabínico tradicional. Agora o argumento de que os protestantes teriam se inspirado nas Escrituras para postular o completo desencantamento do mundo que alimentou o capitalismo incipiente e levou ao estado de coisas atual – bem, aí são outros 500, mas não dá para colocar na conta dos redatores da Bíblia.

3 comentários Adicione o seu

  1. Sobre Deus ter dado poder a Adão sobre todas as coisas, eu ouvi essa exata frase de meu pai, batista, enquanto discutíamos o fato de ainda se ter roupas de peles de animais hoje em dia. Eu tive que sair da sala de raiva de ouvir um argumento tão retrógrado e cheio de indiferença ao meio ambiente.

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    1. fraterabstru disse:

      É foda, né, pessoal gosta de usar a Bíblia pra justificar qualquer coisa. E o pior é que, mesmo que você parta desse princípio, tipo “beleza, Deus deu poder a Adão sobre todas as coisas”, ter poder sobre as coisas não significa ter carta branca pra ser tirano.

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  2. Oki disse:

    A última foto não seria a estela de Anu?

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